TRIBUTO A ALLAN KARDEC
Aqueles eram também como estes dias tumultuosos...
Depois de largo período em diferentes prisões, o filho de Luís Bonaparte, então rei da Holanda, tentou, várias vezes, encontrar o seu lugar ao sol do poder, havendo fracassado na insurreição contra o papa na Romagna e na tentativa de levantar os soldados franceses em Estrasburgo. Preso, mais uma vez, havendo conseguido evadir-se e tornar-se membro da Assembleia Nacional, logrou eleger-se presidente da República, posteriormente dando um golpe de Estado, que lhe facultou ser nomeado presidente pelo prazo de longos 10 anos. Dominado pela ambição, propôs um plebiscito que o tornou imperador da França, a partir de dezembro de 1852, traindo os ideais libertários que derrubaram os Bourbons na revolução de 1789...
Carlos Luís Napoleão Bonaparte, o imperador, era sobrinho de Napoleão I, possuidor de comportamento combativo e guerreiro, pois que promoveu inúmeras campanhas bélicas e a guerra contra a Alemanha em 1870, quando caiu prisioneiro. A fim de manter a governança, algo arbitrária, impôs leis restritivas à liberdade de imprensa e de pensamento, inclusive proibindo reuniões públicas ou particulares sem permissão da polícia.
A cultura, no entanto, apesar dos impedimentos defluentes da dominação prepotente e da vigília implacável do clero, sempre ao lado dos tronos e ávido de poder, encontrava-se enfrentando singular interferência espiritual, em face dos fenômenos insólitos que se iniciaram em Hydesville, em 1848, e imigraram para a Europa, encontrando receptividade nos salões parisienses da moda.
Tratava-se de uma eclosão de poderosas informações em torno da imortalidade e do amor sob nova óptica, despertando curiosidade e provocando estranheza em todos aqueles que os examinavam.
Naquele período, no entanto, estavas, professor Rivail, trabalhando em favor da educação, preparando as mentes para os futuros dias da Humanidade, quando as luzes libertadoras do conhecimento em forma de sabedoria deveriam clarear a sociedade para sempre.
De caráter íntegro, trouxeste os métodos pestalozianos para a França natal, contribuindo eficazmente em favor da libertação humana da ignorância, enquanto acompanhavas o magnetismo que te alargara os horizontes do pensamento e da interpretação dos fenômenos humanos e suas inumeráveis possibilidades de desenvolvimento.
Portador de uma ética irretocável, mantiveste os valores morais, quando surpreendido pelo vício do tio-sócio, que se entregava à jogatina, exigindo-te sacrifícios expressivos, de modo a manteres a honra inatacável em qualquer época.
Havendo elegido a suave-doce Gaby para companheira do ministério sacerdotal do lar, nela tiveste o apoio moral, cultural e afetivo para desempenhares a incomparável missão que aceitaste antes do mergulho nas sombras cla carne.
Convidado, três vezes, a tomar conhecimento das mesas girantes, não te permitiste o entusiasmo dos ingênuos nem o cepticismo dos presunçosos, antes assumiste a postura racional que sempre definiria os rumos da tua existência, aguardando que os fatos confirmassem as informações.
... E isso aconteceu na noite de terça-feira, 8 de maio de 1855, na residência da senhora Plainemaison, quando constataste que em condições tais que não deixavam margem a qualquer dúvida, consoante afirmaste posteriormente, deverias iniciar o messianato a que entregarias a existência preciosa até o momento final no corpo somático...
Como a ninguém antes ocorrera, percebeste naquelas aparentes futilidades, no passa-tempo que faziam daqueles fenômenos, qualquer coisa de sério, como que a revelação de uma nova lei, que tomei a mim investigar a fundo, repetindo as tuas próprias palavras...
Sucede que trazias no inconsciente o conhecimento adquirido quando, na Espiritualidade, na convivência com os apóstolos da Nova Revelação, foste indicado para ser o vexilário da Mensagem libertadora, fundamentada no pensamento de ]esus e confirmada nos laboratórios das academias, interpretando os enigmas filosóficos do ser, do sofrimento, da vida e da morte, das causas e efeitos existentes no Universo.
Não temeste os enfrentamentos nem as ameaças dos infelizes perseguidores dos idealistas e dos vanguardeiros do progresso.
Adquirida a consciência da responsabilidade, enfrentaste todos os impedimentos, logrando publicar O Livro dos Espíritos, na memorável manhã de um sábado primaveril, em 18 de abril de 1857, em pleno Palais Royal, iniciando a Era da Imortalidade comprovada em laboratório.
A partir desse momento, usando o pseudônimo de Allan Kardec — evocativo da anterior existência nas Gálias gloriosas, isto é, naquele mesmo solo amado da França, quando foste sacerdote druida, venerável emissário do deus Dispater, ou deus da fraternidade, já reencarnacionista e vegetariano, quase vinte séculos antes — deixaste que o Espírito de Verdade te conduzisse os passos no rumo da vitória plena.
]amais titubeaste ante a certeza do dever a cumprir, nunca temeste qualquer tipo de perseguição e infâmia, permanecendo integérrimo no desempenho da sublime tarefa: implantar na Terra o reino dos Céus, atualizado pelos notáveis contributos da então moderna Ciência, sem olvidar-te da caridade, a senda luminosa que conduz à plenitude.
Não faltaram invejosos que, ante a impossibilidade de igualar-te, porque jamais te superariam, caluniaram-te, tentando ultrajar a tua existência ilibada, sem que conseguissem qualquer êxito, e não desperdiçaste o precioso tempo com esses inúteis discutidores insensatos e perturbadores da ordem e da paz.
Aplicaste todas as forças de que dispunhas, ao lado da mulher amada, a doce poetisa dos Contos Primaveris, que se te fez sustentáculo nas batalhas mais rudes, quando o Espírito de Verdade te amparava com infinito amor e sabedoria, até chegares quase à exaustão.
Viagens cansativas e longas, desconfortáveis e desafiadoras, acirrados combates periodísticos, que enfrentavas com dignidade através das páginas luminosas da Revista Espírita, que fundaste em janeiro de 1858, sem jamais revidar mal por mal, infâmia por infâmia, sempre sereno e sábio, elucidando os detratores e os sinceramente desconhecedores da Doutrina, constituíam o teu dia-a-dia de herói do Bem.
Completaste a obra gigantesca, acompanhando a deserção dos fracos e evasivos, sem te perturbares, permanecendo irretocável até o momento da desencarnação, na inesquecível manhã de 31 de março de 1869, quando te alaste na direção do Infinito de onde vieste para socorrer a Humanidade.
É natural, portanto, que nós, os Espíritos encarnados e desencarnados, que fomos beneficiados pelas luminíferas claridades da Doutrina Espírita, evocando o teu renascimento em Lyon, no já longínquo-próximo 3 de outubro de 1804, repitamos, em coro de agradecimento e júbilo:
— Deus te abençoe, Hippolyte Léon Denizard Rivail, inolvidável mestre Allan Kardec, apóstolo da Era Nova, por todas as gloriosas contribuições que nos trouxeste ao conhecimento em nome de ]esus-Cristo, através dos Seus Mensageiros, a fim de que nestes dias, igualmente tumultuosos, possamos confiar no amanhã, construindo a feliciclade no imo dos corações!
Sem olvidarmos os notáveis médiuns de que te utilizaste, a eles envolvemos também em nossas dúlcidas vibrações de paz e de intérmino progresso pela superior missão que tiveram, na condição de instrumentos da verdade.
Livro: Espiritismo e Vida
Divaldo Pereira Franco, pelo Espírito Vianna de Carvalho
LEAL – Livraria Espírita Alvorada Editora
Para mudar o mundo é preciso mudar a si mesmo.