MINHAS PAISAGENS
José Geraldo Martinez
Quantas paisagens interiores
Que passam na minha janela !
Estradas do meu lugar
Onde um dia , corri por elas .
Lá está o ingazeiro ,
o paiol de milho cheio.
A casa branca de Raquel.
O mesmo cinema antigo.
Os velhos jogando prosa ...
Na praça, o jardim de rosas.
Quantas que foram roubadas!
Eu , em mim , na velha estrada...
Dona Zica pasteleira , viva !
Breco o carro em ribanceira,
para apanhar um pastel.
Sigo a viagem em mim,
lá no rio, as lavadeiras .
Freio o carro , passa a boiada .
Poeira levanta na longa estrada.
Seu Neca boiadeiro , viva !
Com seu cachorro campeiro .
Os paturis do entardecer , vejam !
As juritis no capão .
Escuta só a codorninha , escuta ?
E depois o ribeirão !
Quantas paisagens , quantas !
Espera , lá vem meu pai !
Hoje tem doce e guaraná ,
foi dia de compras!
Roupas para Regina ,
botinas para José !
Eta mãe , não muda nada ,
continua me apertando o pé !
Paro o carro , o foto Kubo .
Ainda estão no mostruário,
minha primeira comunhão
e o casamento de Januário !
Orgulho-me , estou lá ainda .
Ah ! se o Kubo tirar !
Amareladas com o tempo
que não para de passar ...
Paro o carro , a Matriz .
O Velho chafariz .
O vigário festeiro ,
hoje tem leitoa no leilão ,
bolo no tabuleiro .
Lá vem bilhetinho de Jurema,
feinha que dava pena .
Perninhas de gambito !
Filha de seu Francisco .
Mas a irmã , Conceição,
em compensação... não era para meu bico.
Segue a viagem ,
lá vem a ponte , paro o carro .
Rio Paraná tem pescadores.
O mesmo horizonte ,
onde o sol dormia .
De longe minha vila .
A torrinha da igreja , viva !
Em quadro , aparece minha terra...
Por mim desenhada .
Segue o carro na estrada,
com minhas paisagens interiores ...

