Da Emoção à Lesão
Ida Ortolani
Do momento em que nasce em diante, o ser humano vive de acordo com o modo de se relacionar com o mundo ou com a realidade. Nossa situação existencial, aqui-e-agora, física ou psíquica, depende de como nos relacionamos com o mundo, depende da qualidade com que nosso ser reage à realidade.
...
Quando a questão a ser considerada for, por exemplo, a alergia, estamos falando de uma maneira imunológica e particular da pessoa se relacionar com determinados objetos do mundo, "transformando-os" em alérgenos. Supondo que outras pessoas em contacto com os mesmos elementos não reagem alergicamente, então a alergia é uma forma característica da pessoa alérgica se relacionar com o mundo.
O mesmo raciocínio pode-se usar em relação ao obeso, que tem uma maneira muito particular de se relacionar com a comida (do mundo), ou do hipertenso, que se relaciona de forma particular com o sal e a água, ou do avarento com sua maneira de se relacionar com o dinheiro, e assim por diante. As relações do sujeito com o objeto, da pessoa com o mundo e com ela mesma, tem sido a maneira mais didática para refletir sobre os efeitos emocionais da vida sobre a pessoa.
Algumas pessoas adoecem, devido à maneira desarmônica de se relacionar com o mundo, enquanto outras, vivenciando as mesmas experiências e contactando o mesmo mundo, são mais adaptadas e sofrem menos.
Saber sobre as condições físicas e emocionais do sujeito aqui-e-agora, implica em saber como ele se relaciona com o trânsito caótico das ruas, com as perdas, com os compromissos do cotidiano, com os poluentes, com seus vícios e suas dependências, com a saúde dos familiares, com sua auto-estima, com seu próprio organismo e assim por diante.
Do nascimento em diante tem início um processo contínuo e dinâmico entre dois elementos; o sujeito, representado por tudo aquilo que seu organismo trouxe ao mundo em termos de constituição biológica, em termos de probabilidades e vulnerabilidades genéticas, e o objeto, representado por tudo aquilo que não é ele ou seja, por tudo aquilo que a vida oferecerá ao seu organismo. Desse momento em diante começará uma sucessão de eventos produzidos pelas relações entre o sujeito e o objeto, entre o ser e o mundo.
No berçário da maternidade já é possível observar diferenças individuais de relacionamento sujeito-objeto; como o recém nascido se relaciona com o objeto comida? Como esse pequeno sujeito se relaciona com a falta da comida ou fome (outro objeto). Como o bebê se relaciona com o objeto luz, ar, frio, calor, colo, ausência de colo, barulho, chupeta, etc, etc.
As diferenças do berçário já mostram algumas características da futura personalidade, antes mesmo que o ambiente possa atuar tão incisivamente. Alguns berram diante do objeto "fome", refletindo uma baixa tolerância a frustrações, enquanto outros são naturalmente mais complacentes e tolerantes, alguns reagem alergicamente ao leite, ao cobertor, sabonete, outros já se adaptam bem a todos esses objetos.
Assim sendo, ao longo desse trabalho vamos ter que considerar sempre o Sujeito, o Objeto e as relações entre eles. Como será que o paciente fóbico se relaciona com situações ansiosas? Como a pessoa introvertida se relaciona com o objeto "falar em público"?
Há pessoas, por exemplo, que ficam completamente transtornadas e furiosas quando usam bebidas alcoólicas, outras ficam divertidas e alegres, outras ainda, ficam sexualmente desinibidas, outras tristes, enfim, são todas maneiras variadas de relacionamento sujeito-álcool. Seriam maneiras psicológicas ou biológicas de relacionamento?
Reavaliar periodicamente o objeto é uma necessidade imperiosa para viver melhor. Só odiamos aquilo que nos é importante, só nos magoamos com aquilo que tem algum valor para nós, da mesma maneira para aquilo que tememos, que evitamos, que nos aborrecemos e assim por diante.
A idéia básica que se pretende transmitir, é sobre as possíveis atitudes do sujeito, no que se refere a (re)valorizar o objeto (a realidade), de forma a melhorar sua adaptação ao mundo em que vive.
Transportando essa idéia para a medicina geral, apenas para exemplo, seria como descobrir uma hipotética maneira da pessoa alérgica ao fungo do mofo, por exemplo, desenvolver uma maneira de revalorizar o objeto (mofo), de forma a descaracterizá-lo como agressivo (alérgeno) e, assim, poder compartilhar harmonicamente uma existência simultânea sujeito-objeto no mundo.
O propósito desse trabalho será mostrar que, uma vez compreendidas nossas reflexões, possa a pessoa corrigir a maneira de se relacionar com o mundo. Ao invés de dizer que o trânsito me irrita, fulano me ofende, beltrano me aborrece e assim por diante, possamos redimensionar o discurso para eu me irrito com o trânsito, eu me ofendo com fulano, eu me aborreço com beltrano.
A diferença de postura pode ser brutal, na medida em que trazemos para nós a maior parte da responsabilidade sobre nossos sentimentos e não, como estamos acostumados, a atribuir nossas emoções e sentimentos exclusivamente ao mundo, ao destino, aos outros...
Enfim, o que se verá aqui, antes de um compêndio de psiquiatria ou uma tese metodologicamente esmerada, será uma espécie de jornalismo psiquiátrico, procurando remeter o leitor a algumas reflexões capazes de aliviar seu sofrimento na lide com o mundo e, não obstante, consigo mesmo.
Ida Ortolani
Do momento em que nasce em diante, o ser humano vive de acordo com o modo de se relacionar com o mundo ou com a realidade. Nossa situação existencial, aqui-e-agora, física ou psíquica, depende de como nos relacionamos com o mundo, depende da qualidade com que nosso ser reage à realidade.
...
Quando a questão a ser considerada for, por exemplo, a alergia, estamos falando de uma maneira imunológica e particular da pessoa se relacionar com determinados objetos do mundo, "transformando-os" em alérgenos. Supondo que outras pessoas em contacto com os mesmos elementos não reagem alergicamente, então a alergia é uma forma característica da pessoa alérgica se relacionar com o mundo.
O mesmo raciocínio pode-se usar em relação ao obeso, que tem uma maneira muito particular de se relacionar com a comida (do mundo), ou do hipertenso, que se relaciona de forma particular com o sal e a água, ou do avarento com sua maneira de se relacionar com o dinheiro, e assim por diante. As relações do sujeito com o objeto, da pessoa com o mundo e com ela mesma, tem sido a maneira mais didática para refletir sobre os efeitos emocionais da vida sobre a pessoa.
Algumas pessoas adoecem, devido à maneira desarmônica de se relacionar com o mundo, enquanto outras, vivenciando as mesmas experiências e contactando o mesmo mundo, são mais adaptadas e sofrem menos.
Saber sobre as condições físicas e emocionais do sujeito aqui-e-agora, implica em saber como ele se relaciona com o trânsito caótico das ruas, com as perdas, com os compromissos do cotidiano, com os poluentes, com seus vícios e suas dependências, com a saúde dos familiares, com sua auto-estima, com seu próprio organismo e assim por diante.
Do nascimento em diante tem início um processo contínuo e dinâmico entre dois elementos; o sujeito, representado por tudo aquilo que seu organismo trouxe ao mundo em termos de constituição biológica, em termos de probabilidades e vulnerabilidades genéticas, e o objeto, representado por tudo aquilo que não é ele ou seja, por tudo aquilo que a vida oferecerá ao seu organismo. Desse momento em diante começará uma sucessão de eventos produzidos pelas relações entre o sujeito e o objeto, entre o ser e o mundo.
No berçário da maternidade já é possível observar diferenças individuais de relacionamento sujeito-objeto; como o recém nascido se relaciona com o objeto comida? Como esse pequeno sujeito se relaciona com a falta da comida ou fome (outro objeto). Como o bebê se relaciona com o objeto luz, ar, frio, calor, colo, ausência de colo, barulho, chupeta, etc, etc.
As diferenças do berçário já mostram algumas características da futura personalidade, antes mesmo que o ambiente possa atuar tão incisivamente. Alguns berram diante do objeto "fome", refletindo uma baixa tolerância a frustrações, enquanto outros são naturalmente mais complacentes e tolerantes, alguns reagem alergicamente ao leite, ao cobertor, sabonete, outros já se adaptam bem a todos esses objetos.
Assim sendo, ao longo desse trabalho vamos ter que considerar sempre o Sujeito, o Objeto e as relações entre eles. Como será que o paciente fóbico se relaciona com situações ansiosas? Como a pessoa introvertida se relaciona com o objeto "falar em público"?
Há pessoas, por exemplo, que ficam completamente transtornadas e furiosas quando usam bebidas alcoólicas, outras ficam divertidas e alegres, outras ainda, ficam sexualmente desinibidas, outras tristes, enfim, são todas maneiras variadas de relacionamento sujeito-álcool. Seriam maneiras psicológicas ou biológicas de relacionamento?
Reavaliar periodicamente o objeto é uma necessidade imperiosa para viver melhor. Só odiamos aquilo que nos é importante, só nos magoamos com aquilo que tem algum valor para nós, da mesma maneira para aquilo que tememos, que evitamos, que nos aborrecemos e assim por diante.
A idéia básica que se pretende transmitir, é sobre as possíveis atitudes do sujeito, no que se refere a (re)valorizar o objeto (a realidade), de forma a melhorar sua adaptação ao mundo em que vive.
Transportando essa idéia para a medicina geral, apenas para exemplo, seria como descobrir uma hipotética maneira da pessoa alérgica ao fungo do mofo, por exemplo, desenvolver uma maneira de revalorizar o objeto (mofo), de forma a descaracterizá-lo como agressivo (alérgeno) e, assim, poder compartilhar harmonicamente uma existência simultânea sujeito-objeto no mundo.
O propósito desse trabalho será mostrar que, uma vez compreendidas nossas reflexões, possa a pessoa corrigir a maneira de se relacionar com o mundo. Ao invés de dizer que o trânsito me irrita, fulano me ofende, beltrano me aborrece e assim por diante, possamos redimensionar o discurso para eu me irrito com o trânsito, eu me ofendo com fulano, eu me aborreço com beltrano.
A diferença de postura pode ser brutal, na medida em que trazemos para nós a maior parte da responsabilidade sobre nossos sentimentos e não, como estamos acostumados, a atribuir nossas emoções e sentimentos exclusivamente ao mundo, ao destino, aos outros...
Enfim, o que se verá aqui, antes de um compêndio de psiquiatria ou uma tese metodologicamente esmerada, será uma espécie de jornalismo psiquiátrico, procurando remeter o leitor a algumas reflexões capazes de aliviar seu sofrimento na lide com o mundo e, não obstante, consigo mesmo.

