domingo, 27 de novembro de 2011

Deixe agora que lhe diga:

Deixe agora que lhe diga:





"— Severino, retirante,


deixe agora que lhe diga:

eu não sei bem a resposta

da pergunta que fazia,

se não vale mais saltar

... fora da ponte e da vida

nem conheço essa resposta,

se quer mesmo que lhe diga

é difícil defender,

só com palavras, a vida,

ainda mais quando ela é

esta que vê, severina

mas se responder não pude

à pergunta que fazia,

ela, a vida, a respondeu

com sua presença viva.

E não há melhor resposta

que o espetáculo da vida:

vê-la desfiar seu fio,

que também se chama vida, ver a fábrica que ela mesma,

teimosamente, se fabrica,

vê-la brotar como há pouco

em nova vida explodida

mesmo quando é assim pequena

a explosão, como a ocorrida

como a de há pouco, franzina

mesmo quando é a explosão

de uma vida severina."



(João Cabral de Melo Neto)