quinta-feira, 10 de maio de 2012


Gosto quando a minha memória brinca de preparar boas surpresas e traz à tona lembranças que parecem surgir do nada. Aquelas que aparecem, de repente, sem ter nenhuma vinculação perceptível com algum fato ou experimento dos sentidos. É provável que a mente tenha lá as suas motivações para trazê-las ao nosso encontro, mas não deixa pistas para que possamos compreendê-las. Essa é uma das minhas partes prediletas da brincadeira: de vez em quando, não conseguir entender nem tentar é um descanso. Um convite para somente sentirmos, nós que costumamos agir como se fôssemos impelidos a entender tudo o tempo todo. É um alívio quando descobrimos a liberdade que há em apenas dizer “não sei”
Eu sei que a memória também nos apronta surpresas desconfortáveis. Que, de vez em quando, ela nos põe em contato com lembranças que por nada nesse mundo queremos rememorar e que não existe nenhum botão que possa ser apertado para evitarmos esse encontro. Mas os benefícios que propicia superam os eventuais desconfortos. Recorro a ela várias vezes para me nutrir, mas não fico por lá além do necessário. No retorno, costumo voltar mais confiante. Ela me lembra de que tudo passa, mas que algumas dádivas conseguem transpor as aparentes cercas do tempo. Dádivas, por exemplo, como o amor compartilhado.

Ana Jácomo