quarta-feira, 20 de junho de 2012

DEUS E O DIABO NA POEIRA DE AGOSTO






(vale a pena ler)



Muitos me pedem para reproduzir aqui uma crônica que publiquei sobre a passagem da Banda do Maestro João Triste pela zona de meretrício de Sacramento, recolhendo prendas para a tradicional festa de Nossa Senhora d´Abadia em agosto, isso nos idos da cidade. Atendendo pedidos aí está, lembrando que as personagens citadas na crônica são reais, algumas ainda vivas..rs..rs.... (Na foto a Rua 12, hoje Av. Antonio Carlos, nos anos 60).

"Década de 60, princípios de agosto.
Um domingo empoeirado, ventania, sol e preguiça.
Por volta de meio dia, os sinos da Matriz repicaram em festa. Houve queima de fogos e o vento levou longe o som da banda do Triste. Pouco depois a carriolinha de prendas do Nequinha Rodero virava a esquina do Ali Charchou e entrava na poeirenta Rua 12. Vinha na frente da banda recolhendo os donativos da festa. Um hino sacro “Queremos Deus homens ingratos” enchia de respeito e dignidade o ar quente daquele período de seca.

Tudo tão solene, piedoso e muito digno!

Na venda do Abrãozinho a banda parou, dando fim ao sagrado hino. Do vendeiro, além da prenda (uma caixa de pó-de-arroz “Cashmere Bouquet”) , ganharam ainda um gole da boa pinga, coisa que não se acha nos dias de hoje. Dali pra cima, por uns cem metros de rua, sucediam-se as casas de prostituição da cidade, até as vendas do Abner e do Israel.

Era o “Beco do Amor”, também chamado de “As Cabaças”.

Quase defronte a venda, o bordel da Noêmia; em frente o velhíssimo casarão da Leontina; do outro lado, na esquina, o boteco do Fracasso; na esquina de cima, a antiga casa da Maria Gorda; atrás, o salão de gafieira da Maria José, o rendez-vous da Zoraiade, uma casa de fundos e outra da Nêga do Padre. Pouco acima o chalezinho da Salvina e o bordel mais afamado, o da Izaura. Do outro lado da rua, o casarão da venda do Abner, atrás o bordel da Iracema e umas outras casinhas de fuzo, sem maior importância. Ali começava a célebre Rua da Zagaia, com suas histórias de crimes, paixões e aventuras.

A banda que tinha se engastalhado na venda do Abrãozinho, deu sinal de prosseguir. A rua apinhada de gente “pra ver a banda passar”. A carriolinha de prendas já estava no Beco do Amor.

O maestro João Triste, cabo reformado da polícia, homem apaixonado, de muitos amores, gostava de um gole e de uma farra, era o músico oficial das festas da cidade. Ele deu um sorrizinho safado pro seus musiqueiros, posicionou-se à frente com sua clarineta e deu o que pôde numa velha marchinha de carnaval que ele gostava, cuja letra era mais ou menos isto:

“quebra, quebra gabiroba
quero ver quebrar,
quebra lá que eu quebro cá,
quero ver quebrar”.

E o pau quebrou!
E o circo pegou fogo! Um fuzuê dos diabos!
A mulherada despejou-se pra rua. Foi um fogo na caixa d’água!
A Luziinha, mulherzinha nanica, zoiuda, de pernas tortas, da casa da Zoraide, atravessou a rua correndo e depositou um gato de bibelô na carriolinha de prendas e caiu na farra.
A rua entupiu-se de mulheres que fizeram o mais quente carnaval em volta da banda. Da janela do casarão, a gordíssima Leontina, ria que se mijava. O Nenzo, negro escandaloso, da bunda baixa, mandalete e animador de gafieira na zona, amasiado da Chibil, entrou no bloco e dava uns gritos mais altos que o som da banda: “Olé, Ooolééé, Oooolééé...”. Com os gritos dele a Tetéia ficou doida. Escandolosa que era, no auge do frenesi, levantou a saia na cabeça e dançou pelada, expondo a bunda ao sol e à poeira de agosto.
E daí? Que mal que tem? Tudo é festa!
Do boteco do Fracasso, o Chico Cabaça soltou uma dúzia de fogos canhão, animando ainda mais a orgia. A Izaura mandou o Cabelo Bão ( catarrento que só ele) levar na carriolinha um pacote de cigarros “Mistura Fina”, prenda da casa.

Com um eslaque vermelho, colante, mostrando as formas, sapato de salto alto, cabelo tingido de loiro, cara borrada de rouge e sombrinha na mão, a Maria Goiaba ia na frente da banda, ensaiando um passo de frevo ou de maracatu, ou se lá do quê.
Diabo no couro, fogo na coisa!

Uma nuvem de poeira acompanhava as animadas folionas.
Quando a banda chegou na venda do Israel ainda tocava o “Me dá um dinheiro aí”. 

E, na grande apoteose, mais uma marchinha de autoria do próprio maestro:

“A Conquista não é vila,
Sacramento não é cidade,
É uma capoeira funda,
Coberta de falsidade”

“Eu não gosto de mineira,
mineira é bicho danado.
Mineira quando vê gente,
Refuga e quebra cerrado”.

Mais fogos, muitos fogos! Gritos do Nenzo!
Num passo extravagante de frevo, uma tesoura, o eslaque da Maria Goiaba rachou no meio. 

Uma calcinha de renda preta, suada e sofrida, pôs a cara na rua. Ainda bem!
Da venda, mandaram um fernete pro maestro e a prenda do vendeiro: duas rapaduras.

Dali pra cima as casas de família.
João Triste se posicionou no meio da rua. Bateu a poeira da farda, ajeitou o quepe, pigarreou forte, limpou a boca com um lenço de seda, trancou a cara, tomou ares de general e, solenemente, piedosamente, entoou o “Louvando a Maria” rua acima..