quinta-feira, 17 de novembro de 2011

NÃO PERDOAR






NÃO PERDOAR









Bezerra de Menezes, almoçava, certa feita, em casa de Quintino Bocaiúva, o grande republicano, e o assunto era o Espiritismo, pelo qual o distinto jornalista passara a interessar-se.



Em meio da conversa, aproxima-se um serviçal e comunica ao dono da casa:



— Doutor, o rapaz do acidente está aí com um policial.



Quintino, que fora surpreendido no gabinete de trabalho com um tiro de raspão, que, por pouco, não lhe atingiu a cabeça, estava indignado com o servidor que inadvertidamente fizera o disparo.



— Manda-o entrar, ordenou o político.



— Doutor, roga o moço, preso, em lágrimas, perdoe o meu erro! Sou pai de dois filhos... Compadeça-se! Não tinha qualquer má intenção... Ser o senhor me processar, que será de mim? Sua desculpa me livrará! Prometo não mais brincar com armas de fogo! Mudarei de bairro, não incomodarei o senhor...



O notável político, cioso da própria tranquilidade, respondeu:



— De modo algum. Mesmo que o seu ato tenha sido de mera imprudência, não ficará sem punição.



Percebendo que Bezerra se sentia mal, vendo-o assim encolerizado, considerou, à guisa de resposta indireta:



— Bezerra, eu não perdoo...



Chamado nominalmente à questão, o amigo exclamou desapontado:



— Ah! você não perdoa!



Sentindo-se intimamente desaprovado, Quintino falou, irritado:



— Não perdoo . E você acha que estou fora do meu direito?



O Dr. Bezerra cruzou os braços com humildade e respondeu:



— Meu amigo, você tem plenamente o direito de não perdoar, contanto que você não erre...



A observação penetrou Quintino como um raio.



O grande político tomou um lenço, enxugou o suor que lhe caía em bagas, tornou à cor natural, e, após refletir alguns momentos, disse ao policial:



— Solte o homem. O caso está liquidado.



E para o moço que mostrava profundo agradecimento:



— Volte ao serviço hoje mesmo, e ajude na copa.



Em seguida, lançou inteligente olhar para Bezerra, e continuou a conversação no ponto em que haviam ficado.









Do livro “Lindos casos de Bezerra de Menezes”, de Ramiro Gama









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Questão 78o: O PROGRESSO MORAL SEGUE SEMPRE O PROGRESSO INTELECTUAL? Resposta-: É a sua consequencia, mas não o segue imediatamente.Livro dos Espíritos, 65ª edição-tradução de J. Herculano Pires.